Inesperadamente
não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa, durante algum tempo, segundos, horas, não sou capaz de mais nada,
inesperadamente paro
a posição em que me encontro, de cabeça para baixo, suspensa pelo cinto de segurança, não me incomoda, o meu corpo, estranhamente, não me pesa, o embate deve ter sido violento, não me lembro, abri os olhos e estava assim, de cabeça para baixo, os braços a bater no tejadilho, as pernas soltas, o desacerto de um boneco de trapos, os olhos a fixarem-se, indolentes, numa gota de água parada num pedaço de vidro vertical, não consigo identificar os barulhos que ouço, recomeço, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa,
são tão maçadoras as lengalengas
durante algum tempo, segundos, horas, não sou capaz de mais nada, devo ter caído muito longe da auto-estrada, a chuva estala no metal do carro, as rodas rolam em seco, gri-gri, gri-gri, grilos, não, não podem ser grilos, tic-tac, os quatro piscas, dentro da gota de água, são apenas os olhos que não se conseguem desviar, são apenas os olhos, o meu carro capotado num baldio, o meu saco de viagem preso num arbusto, as embalagens das ceras, os brindes das clientes e o caderno das contas espalhados na lama, um sapato num charco mais distante, os faróis mantêm-se acesos, a chuva, fios de pirilampos que esvoaçam até morrerem no chão, gri-gri, não podem ser grilos, em todo o lado pedacinhos de vidro que brilham muito, cristais que afugentam a noite,
não devia ter saído de casa
o líquido quente que escorre da minha boca é sangue, reconheço o sabor, a minha boca uma massa, quente, demasiado quente, enjoativa, quero mexer-me, libertar-me do cinto de segurança, as mãos não me obedecem, dois atrapalhos inábeis, as minhas pernas, duas ausências, e os olhos pousados, inertes, na gota de água cheia de luz, uma gota inundada de luz, quase a apanhar-me, a vencer-me, resisto, recomeço, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa,
inesperadamente
não sinto dores, não tenho medo, os meus olhos afogados na gota de luz, os meus ouvidos um albergue de grilos, neste momento posso já não existir aqui este momento pode já não existir para mim rolo sobre as trevas docemente, deslizo na auto-estrada que é sempre igual, a que fica para trás, a que se renova à minha frente, uma língua caridosa que me engole, negra, infinita, avanço, guio-me pelos reflectores que ladeiam a berma, os separadores de aço, o vento torce as árvores desfolhadas, esqueletos tristes, traços riscados a carvão contra o céu, os postes de alta tensão, espantalhos de mãos dadas numa fila para lado nenhum,
docemente
avanço no sentido único em que o infinito se cumpre, a minha cabeça num rodopio agradável, hoje à tarde vendi a casa, assinei a escritura com a caneta de prata, a minha mão não tremeu, não hesitei, se pensava que era fácil foi assustadoramente mais fácil, viajo na noite do temporal,nos últimos dias não se falou noutra coisa, o boletim meteorológico, a protecção civil, nos cafés, as minhas clientes, um assunto,
anunciaram um temporal
um tema de conversa, tanta confusão e se calhar não há nada, enganam-se a toda a hora, quem pode prever os caprichos da natureza, uma troca de palavras, no mar é que vai ser pior, a minha cabeça no rodopio que me sabe bem, estendo uma mão cega para o lado direito, procuro a minha cassete, a partir de hoje vai ser tudo diferente, repito, a partir de hoje vai ser tudo diferente, a chuva abate-se sobre o tejadilho num barulho que me devia assustar, engrossa os vidros, duplica-os, milhares de gotas esborrachadas contra os vidros, teias que o vento logo desfaz, rajadas de vento na ordem dos, desafio a noite do temporal,
rolo sobre as trevas
a minha mão cega à procura de uma voz que amanse o temporal, um raio, um resto da luz do princípio, no início apenas luz, no início apenas luz e nós já cegos para sempre,
bêtises ma chérie, bêtises
custa-me respirar, uma dor no peito, um assunto, bebes sempre de mais, o meu corpo pesado seguindo a mão, a dificuldade de sempre nos gestos mais simples,
mostrenga, mostrenga
outro raio, um néon bonito que divide o escuro, encontro a cassete, um trovão, o escuro que ruge, não me custa acreditar que o mar tenha tomado o lugar do céu para se despenhar sobre a terra, avanço, penso que sobre o céu, um caminho que não pára de crescer nas trevas, coloco a cassete no leitor, carrego no botão para a rebobinar, arranho o silêncio, um tema de conversa na área de serviço,
olha para aquela gorda perdida de bêbeda
uma troca de palavras, há por aí tanta desgraça, nem chega a uma conversa, vê-se cada coisa, tenho o porta-bagagens carregado de ceras, brindes, amostras, folhetos, o caderno das contas, as minhas clientes esperam-me amanhã cedinho, há anos que me esperam, não estas, não neste destino, outras, noutros destinos, um entendimento, sou uma boa vendedora, a melhor, sei de cor e salteado a composição das ceras, as temperaturas a que derretem, as peles a que se destinam, a minha vida uma luta contra milhões de pêlos, de nada me orgulho tanto, talvez da Dora, talvez, conheço os meus inimigos, conheço-lhes as manhas, não me enganam, mesmo quando se partem para crescerem mais fortes, ou se encravam, ou, cobardes, desatam a crescer debaixo da pele, escondidos, conheço os meus inimigos e não perco uma oportunidade para os desmascarar, não os deixo fingir, ganhar tempo, uma guerra sem tréguas, quando olho para as pernas de uma desconhecida sei logo a força dos meus inimigos, como são combatidos, outra profissional olha e não vê nada, eu posso aceitar apostas, sobre as armas utilizadas, cera, creme, gilete, as maquinetas que fazem o barulho irritante das moscas, quando olho para as pernas de uma desconhecida avalio de imediato a força dos meus inimigos, distingo cicatrizes, pêlos encravados, mesmo se quero pensar noutra coisa, especialmente se quero pensar noutra coisa, sou uma boa vendedora, a melhor, faço cem, duzentos quilómetros, os que forem necessários para vender as minhas ceras, não sei fazer mais nada, persigo os meus inimigos, milhões de inimigos em todo o lado, uma luta desigual, perdida, a partir de hoje vai ser tudo diferente, apesar de me sentir tão cansada, não deixo que me passe pela cabeça que, a partir de hoje, a partir de amanhã, nem uma diferença, uma única diferença, não posso aceitar um mar de dias iguais à minha frente, a minha vida a consumir-se na repetição dos dias, dos gestos, das palavras, o Ângelo
ninguém corrige o passado, ponto final
por que ouço o agoirento do Ângelo, faças o que fizeres não te livras de ti, do que foste, do que continuas a ser, faças o que fizeres, por que ouço o agoirento do Ângelo em vez das canções da minha cassete, a partir de hoje vai ser tudo diferente, vendi a casa, é verdade que ainda há pouco, na área de serviço, tornei ao mesmo, mais um homem e a mesma brincadeira, a mesma mentira, ou, para ser mais rigorosa, outra mentira, porventura mais grave, a todos os homens com quem fui e que calharam perguntar-me o nome respondi sempre com uma charadae
um nome de uma flor que também é uma cor
bêtises ma chérie, bêtises
nunca nenhum acertou, talvez fosse estranho, talvez tivesse achado realmente estranho se tivesse pensado nisso, não pensei, até ele todos os homens que tentaram adivinhar, responderam Rosa, a maior parte não arriscou, sorriu e pôs-se a andar, queriam lá saber o meu nome, era só uma pergunta, a mais vulgar, tinham pressa, apenas uma pergunta, a mais comum, para afastar o silêncio, o embaraço, a vergonha de terem estado dentro de uma mulher como eu, nunca conheci nada mais desapiedado do que a carne saciada, o que é certo é que até esta noite, até ele, todos os homens tinham respondido Rosa, um erro de que gostava, outro nome e não era eu que ali estava mas a tal Rosa, uma criatura que chegava a lamentar quando me dava para isso, portanto quando o homem me perguntou o nome repeti a charada certa de que não me ia dar uma resposta diferente de Rosa ou de um sorriso, estava tão convencida que me assustei quando ouvi o meu nome, tenho muito medo, quem se dedica a este tipo de caça tem sempre muito medo, qualquer presa aprende
rapidamente o medo que a pode salvar, há qualquer coisa na estrada, a chuva não me deixa ver, os limpa- pára-brisas já estão na velocidade máxima, há qualquer coisa ali à frente, travo, o carro foge-me, uma guinada, ziguezagueio, nem sequer me assusto, volto à marcha regular, franzo os olhos, é demasiado grande para ser o corpo de um cão ou de um gato, avanço com cautela, só muito perto percebo que é uma árvore tombada, os ramos aos pinotes no vento, um remoinho de folhas, rodo o volante, desvio-me da espiral de folhas que se eleva no escuro, dos ramos que esbracejam, ainda bem que esta árvore não morreu de pé, sempre me entristeceram as árvores que ficam a morrer de pé, ainda sonham com as primaveras seguintes quando lhes colam nos troncos, árvore para abate, ainda sentem o
peso dos ninhos e o vento dos pardais em voo, entristecem-me as árvores mortas que esperam viajantes que lhes fogem, ninguém gosta da sombra da morte, ali ficam até que a serra eléctrica as deita por terra, o tronco em rodelas de madeira, a copa um braçado de galhos que alguém há-de recolher para atear uma lareira ou para, uma folha cola- -se no pára-brisas, levo-a comigo, a partir de hoje nada vai ser diferente, não posso corrigir o que passou, não tenho mão no que aí vem, o aviso de uma saída de emergência do lado direito, a folha voa, não quis ir comigo, não me quer como companhia, estou bêbeda, uma folha não tem querer, estou bêbeda, as folhas sabem tudo sobre nós, estou bêbeda, o coração magoa- me, o meu corpo ainda mais desconhecido do que os estranhos que o tomam, apenas o reconheço na dor, a aguardente deixou-me a cabeça num rodopio que me agrada, esfrego os olhos em vão, continuam turvos, desato a chorar, a folha não me quis acompanhar, sou tão risível, sinto as mãos do homem na minha pele, afago os pequenos
sulcos que as unhas dele deixaram no meu corpo, caminhos, não sei o que fazer com o cheiro de um desconhecido entranhado na minha carne, estou assustada, e se nunca mais tiver lugar em mim, se nunca mais me pertencer, por que me deixo morrer,
por que me mata a vida
acelero em direcção ao infinito que se tornou o meu destino, um único sentido, a partir de hoje tudo vai ser diferente, a noite assusta-me, seis porções de escuro que aguardam fora dos vidros do carro, já é muito tarde, 4.37 no relógio digital do tablier, 4.32 na realidade, sempre me concedi cinco minutos de avanço, é certo que nunca me valeram de muito, nunca cheguei a horas ao futuro, ligeiros atrasos, desencontros, motivos comezinhos de que já não me recordo, avisto um carro à minha frente, é o primeiro que vejo desde que saí da área de serviço, acelero para me aproximar das duas luzinhas vermelhas que se duplicam na água da estrada, o carro segue devagar, decido ultrapassá-lo, vou ao lado de uma desconhecida na noite do temporal, dou-lhe uma cara, redonda, exageradamente redonda, um corpo, gordo, tristemente gordo, uma profissão, vendedora, uma
casa, travessa do paraíso, no, uma filha, a Dora, entrego a desconhecida ao rasto de água que o meu carro deixa, uma serpentina que se encrespa no ar, em vez das luzinhas vermelhas duplicadas no chão duas luzes brancas no retrovisor, uma magia, se soubesse fazer magias desaparecia de mim, acelero, ganho distância das luzes brancas que ficam cada vez mais pequenas, roubo-lhes a cara, o corpo, a profissão, a família, uma bêbeda entretém-se com qualquer coisa, até com um jogo tão fraquinho como este, os faróis do carro que ultrapassei desaparecem do retrovisor, de novo apenas a noite, um aviso, um rectângulo amarelo plantado na berma, que
conduza com prudência leio em voz alta,
conduza com prudência, a voz escorrega contra os vidros, outro rectângulo, este pendurado, anuncia uma encruzilhada, quatro estradas devidamente numeradas, quatro destinos, posso finalmente mudar de rumo, inverter a marcha, desistir, é tentador pensar que posso escolher, e se a partir de hoje fosse realmente tudo diferente, a encruzilhada que conheço dos meus mapas, sempre coleccionei mapas, quer dizer, colecciono mapas há muito tempo, centenas de mapas em minha casa, usados, imaculados, tanto faz, nos mapas escolho os caminhos sem medo, dou voltas e voltas aos meus mundos de papel, vou a todos os lugares, sítios a que não associo uma paisagem, uma cara, uma flor, nada, terras que só existem para cumprirem o meu desejo de partir nas tardes de muito calor, estendo os mapas no chão do meu quarto, não quero saber nada sobre o mundo, nunca quis, nas tardes de muito calor, corro os estores e o meu corpo cobre-se com fios de ovais luminosas, um amontoado de pontos de luz geometricamente dispostos, passo tardes inteiras de verão a viajar, aproximo-me da encruzilhada, dos quatro destinos numerados, a chuva cai translúcida ao pé dos candeeiros de cimento, fios de água tremeluzentes, uma chuva de pirilampos, e se mudasse o destino, e se desistisse